2014-12-21

Crónicas numa Língua de Sal: Um passeio a Olinda

17-12-2014 – Olinda é uma cidade a cerca de 10 Km de Recife e pela sua proximidade poder-se-ia pensar que em pouco se distinguiriam. Assim não é. Olinda não tem arranha céus e isso faz uma grande diferença pois permite que a cidade antiga tenha uma maior visibilidade. Olinda tem muitas casas senhoriais e outras mais modernas tipo vivenda que estão de uma forma geral conservadas, tem também uma série de igrejas e conventos abertos ao público e uma grande atividade artística. Há inúmeros locais como a feira do artesanato onde se encontram dezenas de artistas com os seus ateliers e ainda o largo da Sé onde as comidas regionais são vendidas em pequenas barracas. Mas Olinda é também uma explosão de cor, as cores das casas bem como as cores que são utilizadas nas obras de arte são diferentes do que os nossos olhos estão habituados a registar noutras latitudes. Disso tenho alguns registos em fotografias que logo que tenha meios para enviar mandarei.

Crónicas numa Língua de Sal: Macaé

19-12-2014 – A Expedição Língua de Sal fez-se ao mar ontem pela manhã com uma tripulação constituída por José Viegas e Helenita Ferrandini. O Jolie Brise levantou ferro rumo a Macaé – 110 milhas a sul de Recife.
As quase duas semanas em que  estivemos ancorados em Recife, deixaram algumas marcas, o barco agora passou a andar  mais de vagar, o casco e hélice começam a dar sinais de sujidade. Nos trópicos as algas e outros corpos marinhos desenvolvem-se muito mais rapidamente. Aqui muita coisa acontece de maneira diferente e o jeito é caminhar de acordo com a natureza e o relógio local.
Até Breve
Macaé, Brasil

Crónicas numa Língua de Sal: Recife

08-12-2014 – Recife – Foi aqui o primeiro ponto que tocámos no continente brasileiro, como seguimos diretamente para uma marina com um sistema de segurança como só os brasileiros sabem fazer, ficámos com a ideia de estar num aquartelamento em território inimigo. No entanto quando começámos a sair verificámos que a população é afável, adora ajudar e é de uma alegria espantosa. Mas também vimos grupos de pessoas que habitam no passeio.

11-12-2014 Recife – A entrada num país de destino nem sempre é fácil, especialmente se o país é herdeiro da burocracia portuguesa como é o caso. Há muitas pequenas coisas a tratar que pelo facto de se ser estrangeiro demoram. Há quase uma semana que ando a ver se resolvo as burocracias relacionadas com o barco e comigo, pois tenho um visto prolongado o que obriga também a procedimentos diferentes dum turista normal. Depois há ainda o conseguir um telefone móvel com Internet e para isso é preciso ….. E tudo isto apesar das pessoas tentarem ajudar a resolver os problemas de uma forma sempre muito terna e amiga.
O centro da cidade está cheio durante a semana, com um comercio muito ativo onde é vulgar que as lojas tenham altifalantes para a rua a anunciarem as suas promoções como é usual nas nossas feiras. A parte antiga tem uma arquitetura rica embora bastante degradada. Em relação às novas construções são muitas e de altura superior aos 20 andares. Quando no aproximamos de barco a cidade tem o aspeto de uma grande metrópole à americana, toda espetada com arranha –céus. Estes novos edifícios são muitos e muito recentes.
O comercio é muito diferente do nosso, pode-se comer num vendedor ambulante uma enorme e deliciosa salada de fruta por R$ 2,5 , e é em barracas de calçada que se resolvem muitos dos problemas quotidianos como fazer uma chave ou recarregar um telemóvel.
Nos restaurantes o sistema da comida a quilo que já foi introduzido em Portugal exatamente por brasileiros é o mais comum.
O mercado central vende de tudo, desde peixe e carne passando por artesanato e mais sei lá o quê? Mas tem uma diferença, o número de pessoas é incomparavelmente maior. Também aqui os vendedores artesanais se queixam dos supermercados, local de preferência para muitos que a eles acedem de automóvel, pois tem parqueamento grátis, onde as compras são feitas por preços mais elevados e ainda por cima a credito para encarecer mais um pouco.

Crónicas numa Língua de Sal: A Zona de Convergência Intertropical (Para Navegadores)

A Zona de Convergência Intertropical é a temível área junto ao Equador onde os navegadores de então chegavam a ficar por um mês e mais encalmados sem terem vento para se livrarem daquela área. Esta área não é estável e varia de acordo com as longitudes e com as condições atmosféricas diárias. É possível vê-la através duma carta meteorológica abrangente para a área. Quando eu aí passei fi-lo numa longitude entre 26ºW e 26,5ºW para uma latitude de 05ºN. No entanto quando da minha travessia esta zona estava entre as latitudes 08N e 05N.
Esta Zona Intertropical caracteriza-se por ser muito quente e húmida com a passagem permanente de frentes, onde a chuva por vezes é muito intensa e acompanhada por ventos mais ou menos fortes consoante a intensidade da frente. Por vezes ocorrem trovoadas fortes e nestes casos a intensidade do vento aumenta. Quando atravessei esta área a intensidade do vento não ultrapassou os 30 knts, mas também não estive sujeito a trovoadas fortes.

As frentes sucedem-se
Naturalmente que a estratégia para passar a Zona Intertropical é de fazê-lo numa longitude em que se possa verificar que esta faixa é mais estreita. O (World Cruising Routes, by Jimmy Cornell) sugere que em novembro/dezembro se atravesse o meridiano 25ºW no paralelo 6ºN.
Outra nota interessante é que após a passagem da Zona Intertropical o vento começa a ser do quadrante sul obrigando a bolinas mais ou menos serradas de acordo com a direção do vento. O facto do vento vir do quadrante sul é o sintoma de que a Zona Intertropical foi passada o que se verifica de imediato pois as frentes começam a rarear cada vez mais e os dias tem mais sol. Se a intenção é ter como destino Salvador, que é o mais habitual para os navegadores de regresso ao Brasil, então é preciso ter cuidado em passar a leste dos penedos de S Paulo. Embora o meu destino fosse o arquipélago de Fernando Noronha, optei por esta mesma estratégia,que se verificou estar correta. Quando fiz o troço entre Fernando Noronha e Recife, estava com receio de apanhar por algum tempo uma corrente NW de acordo com o que os pilots para Dezembro indicam, mas tive a informação de um pescador que a 15 Ml a W de Fernando Noronha a corrente já era Sul, o que se verificou correto.

No mar de sargaços
A rota prevista e executada na Zona Intertropical

Crónicas numa Língua de Sal: Fernando Noronha


02-12-2014 – Terça feira - Saímos hoje de Fernando Noronha. Estamos de facto noutro país. No Porto de St.º António onde chegámos dois dias antes e onde havia uma praia, por ser domingo, toda a gente estava sentada em cadeiras e mesas na areia comendo, bebendo e conversando.
A ilha em si é muito bonita e a proteção ambiental funciona. Mergulhámos numa baía do sueste e vimos muitas e enormes tartarugas para além de uma série de peixes na generalidade grandes cujos nomes nos são desconhecidos. Mais tarde mergulhámos no porto de St.º António e o espetáculo foi o mesmo, muitos peixes de todas as cores na sua maioria bem grandes e a Susana ainda viu uma tartaruga enorme, o que quer dizer com um metro ou mais de comprido. Quanto a golfinhos, também abundam e vimos várias vezes um cardume que frequentava a Baía dos Golfinhos.
As pessoas aqui são de uma maneira geral muito afáveis e não há problemas de criminalidade na ilha. Há no entanto na Ilha um senão, uma entidade o IBAMA que controla todos os pontos de acesso a tudo que tem interesse turístico ou paisagístico e que só deixa entrar quem está cadastrado no sistema, e isso no nosso caso custava 60 €/dia para o barco e 14 €/dia por pessoa. É talvez a razão porque tão poucos barcos escalam esta ilha paradisíaca.
O Museu do Tubarão, de visita gratuita é muito interessante e ajuda-nos a perceber melhor esses nossos conterrâneos e a temê-los menos. Estão de parabéns os organizadores. Mas pode ainda apreciar gratuitamente a exuberante vegetação e a enorme variedade de exuberantes flores que se encontram especialmente em zonas urbanas.