2014-11-13

Crónicas numa Língua de Sal: Uma visita à Cidade da Praia

10-11-2014 terça-feira


Eram 08H e apanhámos o transporte, uma Toyota Hiace que leva as pessoas até Praia. Quando entrei na carrinha pensei que seguiria para Praia de imediato, mas como a carrinha ainda não estava cheia, andámos mais ½ hora às voltas no Tarrafal a procurar passageiros até que não coubesse mais ninguém na carrinha. Éramos 19 adultos ao todo mais as bagagens. Não nos podemos mexer na hora e meia de trajeto, que se seguiu. Mas como conseguia mexer a cabeça aproveitei para espiar a paisagem que por ser muito verde e passar por montes e vales é de enorme beleza.
Depois foi a urbe. Praia é uma cidade super populada e muito grande. Como tinha de tratar de documentação do barco fui ao cais que estava em enorme confusão pois tinha um navio de cruzeiro atracado ao cais o que a somar às várias obras em curso o transformava num labirinto cruzado por táxis em todas as direções. O cais de pesca fervilhava de pescadores e vendedeiras prontas a levar o peixe para vender em grandes alguidares de plástico coloridos que as mulheres levam à cabeça.
Dirigimo-nos depois ao plateau na parte alta da cidade onde se encontra o centro comercial de aspeto europeu, as lojas de ferragens à moda portuguesa que chamamos de drogarias, bancos, muitas lojas a vender cartões de telemóvel, muitas lojas do chinês e o mercado. O colorido mercado de frescos,apinhado de vendedores e compradores para conseguirem o melhor produto ou o produto especial que só ali há.
Por fim batemos no mercado da Socupira onde o tipo de mercadoria que se vendia não eram alimentos mas sim roupas e muito mais ( que só um habitante de Praia poderá saber), coisas de todo o tipo e que estava fervilhante de gente. É nesta área que há uma série de restaurantes locais que vendem um prato que é uma refeição completa com feijão ou feijões de vários tipos, um pedaço de peixe ou carne, não muito grande, o indispensável arroz e a perigosa salada, tudo gostossissímo por 200 escudos, o equivalente a 2 euros. Mas se o cliente tomar uma cerveja paga mais 120 escudos pelo luxo. O colorido do local e o colorido dos clientes é enorme, foi aqui que escolhemos almoçar e alimentar os olhos e a mente com novos sabores e imagens.
Depois foi o regresso, apanhar de novo uma carrinha junto aos restaurantes do Sucupira. Desta vez a carrinha trazia muita bagagem e já não carregou tantas pessoas. Como já fossem 3H da tarde e o pessoal já tivesse algum apetite, lá se foi tirando do alforge uma perna de galinha frita que foi dada a provar a 4 dos passageiros que com muito cuidado deram uma mordiscadela cada um, mais uma garrafa de água que também foi dividida por vários. Aqui podemos aprender uma lição de fraternidade e solidariedade que é característica das gentes de menores posses deste lado do planeta. A carrinha continuou subindo e descendo os verdes montes e vales que nos separavam do Tarrafal a 70 Km no norte da ilha.

Crónicas numa Língua de Sal: O estandarte dos 8 Séculos já flutua na Ilha de Santiago

07-11-2014 – quinta-feira.


Ontem fizemos o trajeto entre Tarrafal – S. Nicolau e Tarrafal –Santiago, saímos pelas 14H e chegámos pelas 06H do dia seguinte. O trajeto foi feito com ventos de 15 nós de través a ¾ e por isso foi mais rápido que o previsto. Tudo a funcionar perfeitamente a bordo. O dia foi para descansar um pouco da noite mal passada no mar e ainda no conhecimento desta pequena e simpática povoação que hoje é um local de fim de semana para muitos habitantes de Praia mas que no passado foi local de prisão e sofrimento para muitos compatriotas que se atreveram a ter opinião diversa do regime político instalado.
Para todos muitas saudades e aquele abraço.

Crónicas numa Língua de Sal: Tarrafal, S Nicolau

05-11-2014 Quarta-feira.


Ontem fizemos o trajeto entre as ilhas de S. Vicente e S. Nicolau. Foram 13 horas de vento forte à bolina, que além de nos obrigarem a várias manobras de vela, nos danificaram a genoa. Mas Tarrafal de S. Nicolau era uma paragem obrigatória, pois tínhamos o compromisso de deixar uma placa de homenagem a um velho republicano, Alípio das Neves, que nestas terras esteve deportado por SER o que era num tempo em que era proibido ser-se o que se era.
Eram 10H quando desembarcámos e já estava calor, a primeira impressão foi de que tínhamos chegado finalmente a África. Mais calor, comercio pequeno e familiar, ruas desertas no pino do calor e muitos miúdos sempre dispostos a ajudar.
Soubemos que a ilha tem no interior um vale onde se faz muita agricultura, o que se vê pelos frutos tropicais que se vendem na rua e lojas, mas não fica atrás em relação ao peixe que é muito e de boa qualidade. Hoje comemos um atum de cebolada que estava divinal, acompanhado por um Bucelas branco a condizer. Amanhã ainda vamos por cá ficar. Vamos ver quais as surpresas que o dia nos trará.